Coração de Papelão

“Recortei a luz da lua e colei num papelão
Escrevi ‘assim sou sua’ e te fiz um coração
Encontrei você na rua, você nem deu atenção
Eu não sei qual é a sua, coração de papelão”

Passei o fim de semana todo cantarolando essa simpática musiquinha do Balão Mágico – porque eu sou esquisita o suficiente para lavar a louça ouvindo sucessos infantis dos anos 1980 – e me peguei com ódio do filho da puta que recusou o bendito coração de luz da lua. O tipo de ranço que só sente quem já gastou neurônios criativos e energia à toa com gente blasé. Oras, se eu me esforcei tanto para recortar a porra da luz da lua e colar no papelão, você não tem o direito de me retribuir com menos do que uma estrelinha. Não tem o direito de me negar os sonhos, os desejos, nem o lápis de cor caríssimo da Faber Castell que eu gastei com você. Não tem, não tem, não tem. Vá ser babaca assim no inferno. Tomara que você se apaixone pelo capeta e derreta esse seu coração vagabundo em declarações de amor para ele queimar feito carvão de churrasco. E que você morra lenta e dolorosamente enquanto assiste toda a sua paixão criativa se esvair feito um monte de nada traduzido em “gostei”.

Mas a coisa boa da vida é que eu não sou o eu-lírico da Simony apaixonada, mas uma mocinha crescida e vivente em pleno 2018 onde terapia não é coisa de maluco – a não ser para aquela parcela da população que continua presa na Idade da Pedra e resiste através do tempo para cumprir a cota do retardo na humanidade – e já entendi que, coitado, o mocinho tinha mesmo o direito de não gostar do dito coração reluzente. O negócio de não dar atenção na rua é meio mal-educado, mas aí é outra categoria de ser humano (ser babaca e ser mal-educado são coisas bem diferentes, eu creio). Na verdade, pode ser que ele super tenha conversado com a criatura, mas como “dar atenção” para gente apaixonada costuma ser o mesmo que “corresponder sua enxurrada de sentimentos descontrolados”, ela provavelmente não notou o esforço do cara para ser gentil quando tudo o que ele conseguia pensar, constrangido, era “meu Deus do céu, ela é um doce, mas eu definitivamente não gosto dela desse jeito”.

Simony tinha mesmo é que se conformar com o pé-na-bunda, chorar mais umas três noites como no refrão (e entãããão chorei/e até pensei/amor assim pra quê?) e seguir em frente, até encontrar quem se habilite a recortar toda a Via Láctea, encher de purpurina e colar numa faixa de avião em Copacabana. Afinal, a gente não é obrigado a gostar de ninguém, né? Devia é vir de fábrica a compreensão de que esse negócio chamado “sentimento” funciona muito diferente em cada um, porque ô liçãozinha dolorida de aprender. Na verdade, outra coisa engraçada que a gente entende com o tempo é que mesmo quem ama loucamente nem sempre se dará ao trabalho de gastar rima e lápis de cor para demonstrar afeto. Pode ser que ele só te cobre marcar médico e fique muito bravo quando você esquece de avisar que chegou em casa. Mas não vou me estender muito nesse tópico porque, como diz uma amiga minha, a gente não pode dar tanto spoiler da vida para quem ainda não passou o mesmo perrengue.

No fim das contas, olha que coisa boa, terminei de lavar a louça com menos ódio do rapazinho. Mas pensei que o coração devia estar bem bonito. Fossa inspira a gente que é uma beleza.

(caso você, leitor, não conheça essa belezura de música, taí o link – e não vale rir)

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2018

Há exatos dois meses, um pesadelo me acordou para minha última crise de ansiedade. E, naquele sábado fresco de novembro, eu rezei implorando por ajuda. Ressalte-se aqui, leitor, que embora eu me considere uma pessoa de muita fé, orar me dá uma certa preguiça. A sorte é que, minha nossa, meu santo é forte. Meus santos, no caso – levando em conta o time de intercessores a quem apelo quando preciso rezar por qualquer coisa. Não costumo pedir muita coisa para Papai do Céu, mas quando eu peço, o Cara leva a sério. Naquela noite, suando frio e com coração acelerado, pedi que o novo ano me trouxesse paz. E, como que a última fase de um jogo difícil, dezembro foi movido a inquietudes, mas carregava uma pontinha de esperança. Como dizia uma querida professora da época do vestibular, foi “o último abdominal dolorido para ter certeza que vai ficar com a barriga sarada”. O último fôlego na exaustiva maratona de 2017.

Reza a lenda que a gente não pode elogiar nada tão cedo; mas prefiro encarar este texto com um exercício de gratidão. 2018 chegou lindo e leve; meu tão esperado presente de aniversário. Não me lembro de alguma vez ter cumprido durante um mês inteiro qualquer uma das promessas de Reveillon. Até agora, tudo caminha bem. Neste janeiro abafado e atípico – os dias de Hell de Janeiro só chegaram agora -, li jornal todos os dias, vi bons filmes, li três ótimos livros (um sobre capitalismo, um sobre cristianismo e um romance histórico com princesas e criaturas mágicas; dá para ser mais eu?), comecei a estudar italiano, voltei a cantar e tocar violão (obrigada, pai) e sigo correndo na praia de Copacabana. Em cada uma destas atividades consigo transbordar um pouquinho do meu excesso, e o curioso resultado deste esforço para manter meus pensamentos ocupados com o que presta é que tem me sobrado tempo para tirar pó da minha coleção de estátuas da Disney, recolher a roupa do varal, modelar meus cachinhos, passar creme hidratante nas pernas e protetor solar nas bochechas. Minutinhos que me fazem sentir dona de mim, do meu cantinho, do meu espaço, por dentro e por fora – uma impagável sensação de equilíbrio entre a liberdade e o autocontrole que há de se estender pelos próximos onze meses. Ou, assim eu espero.

(vamos pedindo aos poucos, para o Amigo não achar que é abuso)

Sobre cócegas e Lula-lá

“Você vai encontrar (a alegria) entre amigos e amantes reunidos no fim de tarde de um feriado. Entre adultos, geralmente se arranja algum pretexto para o riso na forma de piadas, mas a facilidade com a qual os menores gracejos produzem risadas nessas horas mostra que elas não são a causa real. Não sabemos qual é essa causa verdadeira. Algo parecido com isso é expresso em boa parte dessa arte detestável que os humanos chamam de música; algo semelhante acontece nos Céus”.

C. S. Lewis, Cartas de um diabo a seu aprendiz

Ontem, você chegou tarde do trabalho e interrompeu minha leitura noturna reclamando da cor clara do meu sofá novo, que “vai dar um trabalhão para limpar”. “A ideia é colocar uma capa”, expliquei, e você prosseguiu com o gracejo se dizendo surpreso com “o quanto eu sou inteligente”. Me arrancou gargalhadas enquanto se despia das roupas de trabalho cantando o jingle do Lula; antes de comemorarmos juntos que já é “Lula preso” na Austrália. Perguntou sobre o meu dia e me disse para ficar atenta aos efeitos colaterais da vacina contra febre amarela, rindo do meu alívio por não ter desmaiado nem precisado de você para segurar a minha mão (não precisei nem da enfermeira, que fique claro). Depois do banho, deitou no meu colo e me fez cócegas. Gargalhei de novo acariciando seus cabelos molhados e me virei para o lado, sentindo seu braço ao redor da minha cintura.

Segundo antes de adormecer, recordei o capítulo de “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, sublinhados a lápis momentos antes de te ouvir virar a chave da porta. E te agradeci por dentro (e agora, neste texto, rs) por ser um pedacinho do meu Céu. Por todas as risadas e instantes de cumplicidade partilhados nestes seis anos. Te agradeci especialmente por não ter me deixado ir embora quando os beijos e carícias pareciam perder o sabor e as divergências pareciam intransponíveis. Obrigada por ter insistido. Por ter se esforçado. Por ter implorado por mais uma chance e por ter aceitado meus pedidos de desculpa nas inúmeras vezes em que eu injustamente agi como quem já partiu. Seu zelo, seu apoio e seu filé temperado com ervas da Provence me convenceram a ficar mais um pouquinho, e todos os dias em que me percebo em paz ao dormir do seu lado me convencem de que a ideia de ficar para sempre é mesmo um bom negócio.

Obrigada por ser a minha alegria. E por torcer comigo para que o Lula seja preso mesmo, rs.

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