Testrálios

Não me lembro desde quando, mas já há alguns anos, eu vejo testrálios.

Mas não os vi logo que você foi embora. Embora soubesse que a despedida seria para sempre, a dimensão da sua falta chegou aos pouquinhos. Sua ausência foi plantada em uma manhã de novembro e espalhou ramos pelo meu coração nos anos que se passaram. Feito mágica, brotos de saudade emergiram da terra e se fizeram visíveis nas missas de domingo, na primeira Comunhão, no primeiro beijo e no primeiro fora, no primeiro emprego e no primeiro plantão. Cresceu tanto que se transformou em uma árvore bonita e sombria. Um salgueiro-lutador que projeta cantos escuros no peito, ao passo que oferece frescor e sombra para que, nas suas memórias, eu me encontre um pouquinho mais.

E só aí vieram os testrálios – criaturas dóceis cuja aparência horrenda me recordam que dizer adeus só é feio quando a gente não aceita – a guiar uma carruagem que não tem destino e, por vezes, se perde pelo caminho. Resta-lhe a certeza de que chegará a algum lugar certamente tão grandioso, desafiador e aconchegante como uma escola de magia, onde seguiremos a batalhar juntas (você do Céu e eu da terra) pelo bom, pelo belo e pelo justo, movidas pela certeza ensinada pela fé e recordada pela literatura: o último inimigo a ser derrotado é a morte.

 

Diga-se de passagem que ela não me deixava ler Harry Potter

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Um desejo

Toda vez que volto de Lorena, sinto vontade de escrever algo sobre a paz. Essas três letrinhas que entram em pauta sempre que a gente fala sobre a intervenção militar no Rio, sobre o diálogo entre as Coreias, sobre permitir ou não a compra de armas, sobre a Síria, sobre a tal “polarização”, etc etc. Com tanta coisa super grave, super importante e super urgente acontecendo e tanta gente pensando, palpitando e agindo a respeito, sempre acabo me sentindo um pouco leviana ao ensaiar dizer qualquer coisa sobre o tema. Especialmente porque, hoje, a paz (ou a ausência dela) que mais me ocupa os pensamentos seja essa que eu experimento quando me deito no sofá cinza da sala da casa onde cresci e, instantaneamente, sinto minha respiração mais leve, como se todos os órgãos do meu corpo voltassem para o lugar. Uma paz que me escapa mesmo quando não há nada no meu círculo próximo grave o suficiente para jogar a culpa – afinal, não moro em uma zona de conflitos, não passo fome, não tenho problemas de saúde, etc – e que se materializou num passe de mágica na noite de ontem quando minhas irmãs cismaram de me embebedar e dançar Bonde do Tigrão na sala. Uma paz de quem não tem muito para reclamar e ainda assim se afoga em crises de ansiedade, de medo do futuro, medo das pessoas, da opinião das pessoas, do raio que o parta, mas sente ter encontrado a fórmula do bom sono ao cochilar descabelada em um carro cheio de mulheres na volta da missa. Uma paz que vem de dentro e que eu desconfio que tenha a ver com esse negócio meio quadrado chamado família – essa que a gente anda deletando feito um áudio inconveniente do gemidão por causa (olha que coisa) da tal polarização. Chegando no Rio agora há pouco, passei por uma procissão dedicada a Nossa Senhora de Fátima, cuja festa é celebrada hoje. Entre os católicos, conta-se que quando a Virgem Maria apareceu às três crianças portuguesas em 1917, fez duros alertas sobre tempos sombrios, mas prometeu que, no fim, seu Imaculado Coração triunfaria. Particularmente, gosto de aplicar essa frase a cada “micro-guerra” que se instala no dia-a-dia, e percebo a vitória da paz sempre que me aconchego nos braços dos meus pais e irmãs. Acho que não é preciso ter fé para concordar que colo é um trem bastante poderoso – quiçá um dos únicos remédios capazes de curar o desassossego constante de quem não carece de nada material. Meu desejo deste final de domingo é que a gente sempre encontre o caminho de volta para estes cantinhos regados de afeto, onde a porcaria da modernidade líquida ainda não colocou suas garras, e a paz se faz presente como num singelo afago de mãe. O mundo está precisando.

Faustina

Nesse Brasil de católico de IBGE, quem diz ter “formação católica” ou “ser católico desde pequenininho”, na maioria das vezes, quer dizer que foi batizado e fez catequese obrigado pelos pais. No máximo, assistiu a umas missas aos domingos convencido pela promessa materna de remunerar o pipoqueiro da porta da igreja (não sei como funciona no Rio, mas em cidade de interior, a presença do pipoqueiro na porta da igreja é tão certa quanto a do cachorro). Acontece, minha gente, que em casa de Aquino – ou, pelo menos, na de dona Ana Myrian -, Suma Teológica é história de ninar. Portanto, na turminha da catequese, eu manjava dos paranauê da primeira Comunhão before it was cool. Modéstia à parte, se o IBGE considerar católico só quem passou pelo mesmo processo de santificação precoce, arrisco dizer que muito padre vai rodar. Mamãe, eu me lembro, achava lindo. Hoje eu acho que fui uma criança meio bizarra.

Uma vez, por exemplo, fiquei pistola com a professora de Educação Física que, impossibilitada de usar a quadra num dia de chuva, botou a turma para assistir filme e cometeu a heresia de trocar, a pedido dos alunos, a MINHA fita cassete sobre a história do profeta Jonas por Space Jam, um desenho altamente alucinógeno sobre um jogo de basquete dos Looney Tunes com o Michael Jordan. Para quem não sabe, Jonas foi um profeta israelita que teria recebido a ordem de Deus para pregar em uma cidade particularmente porra-louca e, com medo, teve a brilhante ideia de se esconder em um navio. Moral da história: o homem naufragou e foi parar na barriga de uma baleia (e eu chamando o Pernalonga de alucinógeno, vai vendo). O negócio é que antes de querer ser freira, eu quis ser veterinária e, rapaz, eu era fascinada pela cena da baleia. Mas é claro que a reclamação que eu fiz para a tia é que era muito importante ensinar às crianças que não dá para se esconder de Deus. Afinal, alucinógeno por alucinógeno, ficamos com o que tem lição de moral – mesmo que ensinada de um jeito meio macabro. Óbvio que não colou. Vencido o meu bico, acabei virando fã de Space Jam e, de quebra, basquete se tornou o único esporte que eu tolerava praticar nas aulas de Educação Física. Viva Jordan e o Pernalonga.

Outro dia eu fiz minha mãe me levar num convento. E morri de frustração porque as irmãs vestiam cinza e não marrom, como minha boneca freira – que, aliás, eu já devia ter apresentado, considerando que ela dá nome ao texto. Faustina foi adotada no Natal, quando eu tinha uns 5 ou 6 anos. Era uma boneca com corpo de pano, rosto, braços e perninhas de plástico. Vestia um hábito (vestido, para os leigos) marrom e um véu marfim, com um terço amarrado à cintura. Ela recebeu esse nome em homenagem a santa Faustina, uma freira polonesa a quem Jesus teria aparecido na década de 1930 e cuja história era minha obsessão do momento. Faustina é bastante conhecida e frequentemente citada nas rodas de amigos para os quais eu já revelei o “curioso caso da boneca freira”. O negócio é que ela é só a ponta do iceberg. Eu JURO pra vocês que me lembro de montar um convento com as santinhas de resina do meu quarto, e brincar de casinha simulando o dia a dia na clausura. No ápice da brincadeira, elas morriam e iam para o Céu. Vou repetir: elas morriam. E-iam-para-o-Céu. Eu inclusive me lembro de encenar o momento em que elas passavam mal e, lindas e sorridentes, pediam que Papai do Céu lhes desse um cantinho ao seu lado. E aí uma das minhas imagens de Nossa Senhora vinha em pessoa buscar a mocinha para levar para o descanso eterno. Fim. Vocês conseguem entender o nível de bizarrice dessa história? Eu não. Confesso que oscilo entre a vontade de ter um ataque de riso ao imaginar a cena e um medo absurdo dessa criança psicótica que se divertia imaginando pessoas mortas.

Não sei se minha mãe tinha consciência da minha brincadeira de casinha canônica mas, de resto, sei que achava tudo ótimo. Ou quase. Já tomei uma dura no meio da missa porque cismei de rezar curvada, como os judeus e muçulmanos ainda fazem. Uma grande injustiça, considerando que a decisão pelo novo método de oração foi tomada após overdose do filme Jesus de Nazaré. Achava muito chique a judaiada prostrada e pensei “taí, domingo é minha deixa”. E, na hora da Consagração, quando os fieis se ajoelharam, eu enterrei a fuça no chão. Pena que minha oração hipster-vintage-concentrada só durou dois minutos: o tempo de a minha irmã brotar do fundo da igreja (para ajudar na causa, eu estava NA FRENTE do altar, com outras crianças) e cochichar no meu ouvido “a mãe falou que se você não ficar direito vai tomar um beliscão”. Aí, é claro, não havia santo que me mantivesse naquela pose. Aliás, cabe lembrar aqui minha curta experiência como coroinha. Na segunda ou terceira vez que fui escalada para servir, a banda tocou uma música que eu adorava cantar com a minha mãe. Ela estava no banco da frente e o que teria sido um momento bonito se converteu em bronca do sacristão só porque eu pulava na cadeira feito um cabrito gesticulando “MÃE OLHA NOSSA MÚSICA”. Resultado: nunca mais voltei nas aulinhas e, até hoje, não tenho simpatia pelo padre Genaro (o sacristão do episódio). Eu juro que esse é o nome dele e que nos meus sonhos mais loucos eu já me imaginei tacando fogo naquela batina ao som de Sandy e Júnior.

Depois de ter colecionado santinhos e livros de pintar de Santa Teresinha, de ter matado minhas imagens de resina e roubado a cena na missa, guardo apenas uma frustração dos meus tempos de criança carola: o de nunca ter feito um papel decente de Nossa Senhora em nenhum dos zilhões de teatrinhos que atuei no ramo. Na minha formatura de pré-escola (a passagem para a 1ª série era bastante caprichada no meu colégio), uma colega foi escolhida para entrar de cosplay de Virgem Maria na frente de todos os pais e professores, segurando uma pequena imagem do Menino Jesus. Ela é linda e é minha amiga até hoje. O que não me impediu de rançar a criatura com todas as minhas forças na época. O engraçado é que na única vez que me ofereceram a oportunidade de encarnar uma santa, em uma situação quase tão nobre quanto aquela, eu recusei. No ano anterior, no desfile de encerramento das aulas dedicado a São Francisco de Assis – que dava nome à escola – pediram que eu saísse vestida de Santa Clara. A honra das honras para alguém chamada Clara, devota da moça e p.h.D. na história dos franciscanos aos cinco anos de idade. Só que, como já mencionei antes, minha mania de santo foi, por algum tempo, ligeiramente superada pela mania por bichos. E eu andava apaixonada por uma peça de Natal encenada na escola que contava o nascimento do Jesus do ponto de vista do burro. Vocês imaginem qual foi a fantasia que eu cismei de usar. Desde então, em minhas incursões teatrais, já encarnei anjo, apóstolo, demônio (é sério) e dançarina de cabaré (é sério de novo). Nossa Senhora ficou na vontade. Burro de presépio – ainda bem – deixou de ser.

Não sei se deu para ler, mas tá escrito Viva Jesus na minha camiseta. Vê-se pela cara da sujeita que ela tá MUITO LOUCA NO LOUVOR

Eu preciso ir embora

Eu pensei em começar esse texto te pedindo desculpas, mas percebi que enquanto eu estiver me desculpando, no fundo, no fundo, é porque ainda não consegui partir. E eu preciso mesmo ir embora. Preciso ir embora de todas as formas possíveis. Física e emocionalmente. Esquecer por algum tempo que você existiu. Foi por isso, inclusive, que te mandei embora das minhas redes sociais. Eu não conseguia olhar suas fotos sem me sentir naufragando em um mar de saudades e ansiedade, como se ondas de boas e más memórias me engolissem a todo o tempo, me impedindo de chegar à superfície para respirar um pouquinho de mim mesma, de quem eu sou, do que eu gosto, de quem eu era antes de você. Do que eu faço sem pensar se você está olhando. Esta é, na verdade, minha maior “infantilidade”: ter condicionado meu bem-estar, minha autoestima, minhas interpretações e significados única e exclusivamente a você (mesmo que você nunca tenha pedido por isso – acredite quando digo que não te culpo por nada). Eu preciso mesmo de ar fresco, e ter você por perto, mesmo que virtualmente, significa sentir meu corpo tomado por algo tóxico, feito uma droga. Você é minha fraqueza e, por muito tempo, imaginei que fugir seria um atestado de covardia. Cheguei à conclusão de que, se meu maior medo é perder você – e qualquer juízo positivo que porventura fizesse de mim –, ir embora sem dar muitas explicações nem responder suas perguntas raivosas seria provar a mim mesma a minha coragem. Não estou exatamente satisfeita com essa alternativa, mas, entenda, não há outra melhor agora. Em um mundo perfeito, meu coração não bateria mais forte a cada mensagem sua. Eu não suaria frio nem tropeçaria nas palavras feito uma adolescente apaixonada, e nós seríamos bons amigos, como prometido. O problema é que não dá. Afinal de contas, você sabe que eu te adoro. E é por isso mesmo que eu preciso ir embora.

Eu preciso falar sobre o Neto

Confesso que tenho um certo bode de conversa que começa com “precisamos falar sobre” qualquer coisa. Mas é que eu preciso mesmo falar sobre o Neto. Ontem foi aniversário dele, eu estou em Dubai a trabalho e não consegui dar uma homenagem escalafobética proporcional ao “você é sensacional” que ele comentou na minha foto de burca e hijab. Agora, cá estou eu, compensando a ausência de um parabéns decente com um parabéns semi-público, que eu espero muito que ele goste.

O engraçado é que não tem como dar parabéns ao Neto sem falar sobre o parabéns que ele me deu em 2010 (o tempo voa né rapaz?), quando chegou na minha festa de aniversário de 15 anos segurando uma sacolinha d’O Boticário, deixando a noite mais bonita que meu vestido azul de cetim. E, lá pelas tantas, depois de cochichar baixinho no meu ouvido – “a menina que eu gosto é você”- me guiou para a casinha de madeira do jardim e uniu para sempre minha noite de debutante à noite do meu inesquecível primeiro beijo. Ainda no calor de janeiro, trocamos juras de amor eterno e, claro, o status do Orkut. Em março, dei ao Neto uma camisa bonita e uma carta perfumada com o Thaty (nada mais adolescente, rs) que ele me dera de aniversário, dedicada ao “meu moreno” e assinada com “Come What May”, de Moulin Rouge, a trilha que escolhemos para embalar o namoro, o casamento, os filhos e tudo mais o que a gente acha que vai viver com o primeiro amor.

Um mês depois da entrega da dita carta, o Neto terminou comigo. E aquela tarde de abril inaugurou um longo ano de muito chororô. O que eu gastei de lágrima com esse moço, minha gente, vocês não imaginam. Haja folha para poema, dedo para violão e cifra do RBD. Neto me disse que não gostava de mim como eu gostava dele e nada no mundo me fazia entender porque raios alguém se envolve com quem não gosta tanto assim – com o tempo, entendi que boa parte da indignação era o grito do ego ferido de quem não entende que ninguém é obrigado a se apaixonar por mim. O coitado levou todos os xingamentos de praxe, foi bloqueado do MSN, ganhou indireta no Twitter e uma ou duas versões de músicas da Miley Cyrus que eu transformei em fossa (que vergonha, pai). Vivi uma verdadeira tragédia shakesperiana. Uma comédia romântica que virou drama. O conto de fadas que a Disney esqueceu de pôr o final feliz – embora eu continuasse a pedir todos os dias por um final feliz com o Neto.

O negócio é que meu santo é muito forte e o grand finale desta novela mexicana é justamente o final feliz que comemoro enquanto escrevo o bendito parabéns do Neto. Outro dia ele foi visitar me no Rio de Janeiro e, em uma linda tarde quente de sábado (tão linda e quente quanto a tarde em que eu tomei um fora), estávamos deitados na areia da praia do Leblon ouvindo a trilha de Moulin Rouge e, nossa, como eu agradeci a Deus por ter tirado o Neto-namorado da minha vida o mais cedo possível, para que o Neto-amigo-xodó pudesse ficar para sempre. Conversamos sobre amores presentes e amores finados, nos acabamos de dançar em uma balada (que terminou comigo fazendo hora enquanto o Neto se dava muito bem) e nos despedimos em um almoço com meu namorado, que ganhou até registro no Instagram.

E é por tudo isso é que eu não me canso de falar do Neto. Porque falar do Neto é falar da cura de um coração partido pelas mãos do tempo e pela fé. É falar sobre a relação intrínseca entre mudança, crescimento e amor. É agradecer a Deus escrever em linhas tortas bonita história de amizade e, claro, pelos 24 anos de alguém que espero permaneça ao meu lado por outros 240. É dizer ao Neto que “come what may, I will love you until my dying day“.

Feliz aniversário, xodó. ❤️

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Não tinha foto nossa, vai essa mesmo.

 

Desculpa o atraso

(alerta de desabafo aleatório)

Nesse mundo insano de gente problemática (incluindo eu nesse balaio, é claro) há alguns tipos que me incomodam de modo especial. Não sei se é por causa da minha ansiedade, ou porque meus pais me ensinaram a ser assim (obrigada, pai) ou porque (desculpa, pai) sou uma paulista exilada nessa cidade governada pelo demo cuja faculdade incutida em seus rebentos logo no nascimento é, justamente, a capacidade de negligenciar compromissos; mas os atrasados me irritam no fundo do coração.

Faço aqui uma ressalva aos imprevistos: acidentes acontecem, é verdade. E trânsito. E ligação inoportuna. E ônibus quebrado, etc etc. Faz parte. Mas mesmo assim, querido, vai chegar atrasado? Me avisa. Faz sinal de fumaça se for preciso. Eu não sou rancorosa. Pedidos de desculpas ancorados em boas justificativas (ou arrependimento, mas aí é um recurso de segunda instância) me derretem e eu vou te perdoar com todo o meu amor e carinho. Mas pelo amor de Jeová ME-A-VI-SA.

Agora, aquele atraso que eu sei que aconteceu simplesmente porque a pessoa não se deu ao trabalho de sair de casa meia hora mais cedo para me encontrar beira o imperdoável. Poucas coisas me dão mais agonia do que esperar por um compromisso que, em tese, estava agendado – e, portanto, para o qual eu me arrumei, me programei, gastei caneta e espaço no meu bullet jornal marcando um quadradinho de tarefa por fazer.

Modéstia à parte, eu sou bem pontual. Desconfio até que isso seja parte do meu pacote reaça-conserva-right-wing-liberal-from-hell. Não só porque acredito que tempo é dinheiro. Mas tempo é energia. É investimento. Um recurso esgotável, insubstituível e estritamente individual. Uma das commodities mais valiosas que se pode trocar, e o melhor, a troco de qualquer coisa – inclusive afeto. Aliás, que fique claro que não quero bancar a Miss Ocupada – conheço um bocado de gente bem mais atarefada e caótica do que eu – mas meu tempo é bastante precioso mesmo quando eu estou “fazendo nada”. Especialmente porque se eu estiver “fazendo nada”, provavelmente estou fazendo algo que me descansa a cabeça.

Portanto, de novo, salvo imprevistos e absolvidos em segunda instância (casos raros, btw) que fique avisado: não me venham com “desculpa pelo atraso”. Desculpo o cacete. Faça-me o favor de cumprir por meia hora a tarefa que eu devia estar fazendo enquanto estava te esperando. E, se eu não estava fazendo nada, que cumpra com adiantamento as obrigações que eu custo a terminar no prazo justamente para que possa me dar o luxo de não fazer nada em algum momento. Tempus fugit, minha gente. Dá pra desperdiçar não.

Obs.: evidente que esse final tosco é porque eu escrevi o texto num fôlego só depois de um episódio de atraso, aí passou o dia, eu fiquei bem e faltou ódio para escrever um final decente. Sinal de que eu não sou mesmo rancorosa.

 

Parabéns.

Você só me desgasta. Me cansa, me irrita, me torra a paciência. Você não vale o aluguel que eu pago para me manter por perto. Não vale desconto do chaveirinho do supermercado Zona Sul. Você me deixa aflita. Ansiosa. Você me entope de inseguranças e teima em culpar seus filhos que te descuidaram, te maltrataram e te transformaram nesse monstro. Insiste em me dizer que nem todos são assim, que você já foi um bom pai, e que mesmo entre os rebentos que você cruelmente relegou ao esquecimento, há quem não tenha herdado esse seu “jeitinho” exxxcroto de ignorar responsabilidades, mas não perder uma festa. E aí, como que num pedido de desculpas fajuto, você me seduz com suas curvas e cores. Eu mergulho nos seus abraços, me delicio nas suas ondas e me rendo, de novo. Acordo suada, melada, fritando de ódio – me perguntando por que raios eu ainda estou nesse relacionamento. Não há um dia, aliás, que meus pais não me perguntem quando vamos nos separar para sempre. Quando vou encontrar alguém melhor e, finalmente, você será apenas uma paixão do passado, um romance de verão, uma longa e impactante aula da vida. Afinal de contas, você só me fode. O problema é que é gostoso que dói.

Feliz aniversário, Rio de Janeiro. Aproveite seu dia. Eu não vou embora tão cedo.

Eu e o embuste. Olha como é bonita essa desgraça

Coração de Papelão

“Recortei a luz da lua e colei num papelão
Escrevi ‘assim sou sua’ e te fiz um coração
Encontrei você na rua, você nem deu atenção
Eu não sei qual é a sua, coração de papelão”

Passei o fim de semana todo cantarolando essa simpática musiquinha do Balão Mágico – porque eu sou esquisita o suficiente para lavar a louça ouvindo sucessos infantis dos anos 1980 – e me peguei com ódio do filho da puta que recusou o bendito coração de luz da lua. O tipo de ranço que só sente quem já gastou neurônios criativos e energia à toa com gente blasé. Oras, se eu me esforcei tanto para recortar a porra da luz da lua e colar no papelão, você não tem o direito de me retribuir com menos do que uma estrelinha. Não tem o direito de me negar os sonhos, os desejos, nem o lápis de cor caríssimo da Faber Castell que eu gastei com você. Não tem, não tem, não tem. Vá ser babaca assim no inferno. Tomara que você se apaixone pelo capeta e derreta esse seu coração vagabundo em declarações de amor para ele queimar feito carvão de churrasco. E que você morra lenta e dolorosamente enquanto assiste toda a sua paixão criativa se esvair feito um monte de nada traduzido em “gostei”.

Mas a coisa boa da vida é que eu não sou o eu-lírico da Simony apaixonada, mas uma mocinha crescida e vivente em pleno 2018 onde terapia não é coisa de maluco – a não ser para aquela parcela da população que continua presa na Idade da Pedra e resiste através do tempo para cumprir a cota do retardo na humanidade – e já entendi que, coitado, o mocinho tinha mesmo o direito de não gostar do dito coração reluzente. O negócio de não dar atenção na rua é meio mal-educado, mas aí é outra categoria de ser humano (ser babaca e ser mal-educado são coisas bem diferentes, eu creio). Na verdade, pode ser que ele super tenha conversado com a criatura, mas como “dar atenção” para gente apaixonada costuma ser o mesmo que “corresponder sua enxurrada de sentimentos descontrolados”, ela provavelmente não notou o esforço do cara para ser gentil quando tudo o que ele conseguia pensar, constrangido, era “meu Deus do céu, ela é um doce, mas eu definitivamente não gosto dela desse jeito”.

Simony tinha mesmo é que se conformar com o pé-na-bunda, chorar mais umas três noites como no refrão (e entãããão chorei/e até pensei/amor assim pra quê?) e seguir em frente, até encontrar quem se habilite a recortar toda a Via Láctea, encher de purpurina e colar numa faixa de avião em Copacabana. Afinal, a gente não é obrigado a gostar de ninguém, né? Devia é vir de fábrica a compreensão de que esse negócio chamado “sentimento” funciona muito diferente em cada um, porque ô liçãozinha dolorida de aprender. Na verdade, outra coisa engraçada que a gente entende com o tempo é que mesmo quem ama loucamente nem sempre se dará ao trabalho de gastar rima e lápis de cor para demonstrar afeto. Pode ser que ele só te cobre marcar médico e fique muito bravo quando você esquece de avisar que chegou em casa. Mas não vou me estender muito nesse tópico porque, como diz uma amiga minha, a gente não pode dar tanto spoiler da vida para quem ainda não passou o mesmo perrengue.

No fim das contas, olha que coisa boa, terminei de lavar a louça com menos ódio do rapazinho. Mas pensei que o coração devia estar bem bonito. Fossa inspira a gente que é uma beleza.

(caso você, leitor, não conheça essa belezura de música, taí o link – e não vale rir)

2018

Há exatos dois meses, um pesadelo me acordou para minha última crise de ansiedade. E, naquele sábado fresco de novembro, eu rezei implorando por ajuda. Ressalte-se aqui, leitor, que embora eu me considere uma pessoa de muita fé, orar me dá uma certa preguiça. A sorte é que, minha nossa, meu santo é forte. Meus santos, no caso – levando em conta o time de intercessores a quem apelo quando preciso rezar por qualquer coisa. Não costumo pedir muita coisa para Papai do Céu, mas quando eu peço, o Cara leva a sério. Naquela noite, suando frio e com coração acelerado, pedi que o novo ano me trouxesse paz. E, como que a última fase de um jogo difícil, dezembro foi movido a inquietudes, mas carregava uma pontinha de esperança. Como dizia uma querida professora da época do vestibular, foi “o último abdominal dolorido para ter certeza que vai ficar com a barriga sarada”. O último fôlego na exaustiva maratona de 2017.

Reza a lenda que a gente não pode elogiar nada tão cedo; mas prefiro encarar este texto com um exercício de gratidão. 2018 chegou lindo e leve; meu tão esperado presente de aniversário. Não me lembro de alguma vez ter cumprido durante um mês inteiro qualquer uma das promessas de Reveillon. Até agora, tudo caminha bem. Neste janeiro abafado e atípico – os dias de Hell de Janeiro só chegaram agora -, li jornal todos os dias, vi bons filmes, li três ótimos livros (um sobre capitalismo, um sobre cristianismo e um romance histórico com princesas e criaturas mágicas; dá para ser mais eu?), comecei a estudar italiano, voltei a cantar e tocar violão (obrigada, pai) e sigo correndo na praia de Copacabana. Em cada uma destas atividades consigo transbordar um pouquinho do meu excesso, e o curioso resultado deste esforço para manter meus pensamentos ocupados com o que presta é que tem me sobrado tempo para tirar pó da minha coleção de estátuas da Disney, recolher a roupa do varal, modelar meus cachinhos, passar creme hidratante nas pernas e protetor solar nas bochechas. Minutinhos que me fazem sentir dona de mim, do meu cantinho, do meu espaço, por dentro e por fora – uma impagável sensação de equilíbrio entre a liberdade e o autocontrole que há de se estender pelos próximos onze meses. Ou, assim eu espero.

(vamos pedindo aos poucos, para o Amigo não achar que é abuso)

Sobre cócegas e Lula-lá

“Você vai encontrar (a alegria) entre amigos e amantes reunidos no fim de tarde de um feriado. Entre adultos, geralmente se arranja algum pretexto para o riso na forma de piadas, mas a facilidade com a qual os menores gracejos produzem risadas nessas horas mostra que elas não são a causa real. Não sabemos qual é essa causa verdadeira. Algo parecido com isso é expresso em boa parte dessa arte detestável que os humanos chamam de música; algo semelhante acontece nos Céus”.

C. S. Lewis, Cartas de um diabo a seu aprendiz

Ontem, você chegou tarde do trabalho e interrompeu minha leitura noturna reclamando da cor clara do meu sofá novo, que “vai dar um trabalhão para limpar”. “A ideia é colocar uma capa”, expliquei, e você prosseguiu com o gracejo se dizendo surpreso com “o quanto eu sou inteligente”. Me arrancou gargalhadas enquanto se despia das roupas de trabalho cantando o jingle do Lula; antes de comemorarmos juntos que já é “Lula preso” na Austrália. Perguntou sobre o meu dia e me disse para ficar atenta aos efeitos colaterais da vacina contra febre amarela, rindo do meu alívio por não ter desmaiado nem precisado de você para segurar a minha mão (não precisei nem da enfermeira, que fique claro). Depois do banho, deitou no meu colo e me fez cócegas. Gargalhei de novo acariciando seus cabelos molhados e me virei para o lado, sentindo seu braço ao redor da minha cintura.

Segundo antes de adormecer, recordei o capítulo de “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, sublinhados a lápis momentos antes de te ouvir virar a chave da porta. E te agradeci por dentro (e agora, neste texto, rs) por ser um pedacinho do meu Céu. Por todas as risadas e instantes de cumplicidade partilhados nestes seis anos. Te agradeci especialmente por não ter me deixado ir embora quando os beijos e carícias pareciam perder o sabor e as divergências pareciam intransponíveis. Obrigada por ter insistido. Por ter se esforçado. Por ter implorado por mais uma chance e por ter aceitado meus pedidos de desculpa nas inúmeras vezes em que eu injustamente agi como quem já partiu. Seu zelo, seu apoio e seu filé temperado com ervas da Provence me convenceram a ficar mais um pouquinho, e todos os dias em que me percebo em paz ao dormir do seu lado me convencem de que a ideia de ficar para sempre é mesmo um bom negócio.

Obrigada por ser a minha alegria. E por torcer comigo para que o Lula seja preso mesmo, rs.

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