Eu preciso falar sobre o Neto

Confesso que tenho um certo bode de conversa que começa com “precisamos falar sobre” qualquer coisa. Mas é que eu preciso mesmo falar sobre o Neto. Ontem foi aniversário dele, eu estou em Dubai a trabalho e não consegui dar uma homenagem escalafobética proporcional ao “você é sensacional” que ele comentou na minha foto de burca e hijab. Agora, cá estou eu, compensando a ausência de um parabéns decente com um parabéns semi-público, que eu espero muito que ele goste.

O engraçado é que não tem como dar parabéns ao Neto sem falar sobre o parabéns que ele me deu em 2010 (o tempo voa né rapaz?), quando chegou na minha festa de aniversário de 15 anos segurando uma sacolinha d’O Boticário, deixando a noite mais bonita que meu vestido azul de cetim. E, lá pelas tantas, depois de cochichar baixinho no meu ouvido – “a menina que eu gosto é você”- me guiou para a casinha de madeira do jardim e uniu para sempre minha noite de debutante à noite do meu inesquecível primeiro beijo. Ainda no calor de janeiro, trocamos juras de amor eterno e, claro, o status do Orkut. Em março, dei ao Neto uma camisa bonita e uma carta perfumada com o Thaty (nada mais adolescente, rs) que ele me dera de aniversário, dedicada ao “meu moreno” e assinada com “Come What May”, de Moulin Rouge, a trilha que escolhemos para embalar o namoro, o casamento, os filhos e tudo mais o que a gente acha que vai viver com o primeiro amor.

Um mês depois da entrega da dita carta, o Neto terminou comigo. E aquela tarde de abril inaugurou um longo ano de muito chororô. O que eu gastei de lágrima com esse moço, minha gente, vocês não imaginam. Haja folha para poema, dedo para violão e cifra do RBD. Neto me disse que não gostava de mim como eu gostava dele e nada no mundo me fazia entender porque raios alguém se envolve com quem não gosta tanto assim – com o tempo, entendi que boa parte da indignação era o grito do ego ferido de quem não entende que ninguém é obrigado a se apaixonar por mim. O coitado levou todos os xingamentos de praxe, foi bloqueado do MSN, ganhou indireta no Twitter e uma ou duas versões de músicas da Miley Cyrus que eu transformei em fossa (que vergonha, pai). Vivi uma verdadeira tragédia shakesperiana. Uma comédia romântica que virou drama. O conto de fadas que a Disney esqueceu de pôr o final feliz – embora eu continuasse a pedir todos os dias por um final feliz com o Neto.

O negócio é que meu santo é muito forte e o grand finale desta novela mexicana é justamente o final feliz que comemoro enquanto escrevo o bendito parabéns do Neto. Outro dia ele foi visitar me no Rio de Janeiro e, em uma linda tarde quente de sábado (tão linda e quente quanto a tarde em que eu tomei um fora), estávamos deitados na areia da praia do Leblon ouvindo a trilha de Moulin Rouge e, nossa, como eu agradeci a Deus por ter tirado o Neto-namorado da minha vida o mais cedo possível, para que o Neto-amigo-xodó pudesse ficar para sempre. Conversamos sobre amores presentes e amores finados, nos acabamos de dançar em uma balada (que terminou comigo fazendo hora enquanto o Neto se dava muito bem) e nos despedimos em um almoço com meu namorado, que ganhou até registro no Instagram.

E é por tudo isso é que eu não me canso de falar do Neto. Porque falar do Neto é falar da cura de um coração partido pelas mãos do tempo e pela fé. É falar sobre a relação intrínseca entre mudança, crescimento e amor. É agradecer a Deus escrever em linhas tortas bonita história de amizade e, claro, pelos 24 anos de alguém que espero permaneça ao meu lado por outros 240. É dizer ao Neto que “come what may, I will love you until my dying day“.

Feliz aniversário, xodó. ❤️

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Não tinha foto nossa, vai essa mesmo.

 

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Desculpa o atraso

(alerta de desabafo aleatório)

Nesse mundo insano de gente problemática (incluindo eu nesse balaio, é claro) há alguns tipos que me incomodam de modo especial. Não sei se é por causa da minha ansiedade, ou porque meus pais me ensinaram a ser assim (obrigada, pai) ou porque (desculpa, pai) sou uma paulista exilada nessa cidade governada pelo demo cuja faculdade incutida em seus rebentos logo no nascimento é, justamente, a capacidade de negligenciar compromissos; mas os atrasados me irritam no fundo do coração.

Faço aqui uma ressalva aos imprevistos: acidentes acontecem, é verdade. E trânsito. E ligação inoportuna. E ônibus quebrado, etc etc. Faz parte. Mas mesmo assim, querido, vai chegar atrasado? Me avisa. Faz sinal de fumaça se for preciso. Eu não sou rancorosa. Pedidos de desculpas ancorados em boas justificativas (ou arrependimento, mas aí é um recurso de segunda instância) me derretem e eu vou te perdoar com todo o meu amor e carinho. Mas pelo amor de Jeová ME-A-VI-SA.

Agora, aquele atraso que eu sei que aconteceu simplesmente porque a pessoa não se deu ao trabalho de sair de casa meia hora mais cedo para me encontrar beira o imperdoável. Poucas coisas me dão mais agonia do que esperar por um compromisso que, em tese, estava agendado – e, portanto, para o qual eu me arrumei, me programei, gastei caneta e espaço no meu bullet jornal marcando um quadradinho de tarefa por fazer.

Modéstia à parte, eu sou bem pontual. Desconfio até que isso seja parte do meu pacote reaça-conserva-right-wing-liberal-from-hell. Não só porque acredito que tempo é dinheiro. Mas tempo é energia. É investimento. Um recurso esgotável, insubstituível e estritamente individual. Uma das commodities mais valiosas que se pode trocar, e o melhor, a troco de qualquer coisa – inclusive afeto. Aliás, que fique claro que não quero bancar a Miss Ocupada – conheço um bocado de gente bem mais atarefada e caótica do que eu – mas meu tempo é bastante precioso mesmo quando eu estou “fazendo nada”. Especialmente porque se eu estiver “fazendo nada”, provavelmente estou fazendo algo que me descansa a cabeça.

Portanto, de novo, salvo imprevistos e absolvidos em segunda instância (casos raros, btw) que fique avisado: não me venham com “desculpa pelo atraso”. Desculpo o cacete. Faça-me o favor de cumprir por meia hora a tarefa que eu devia estar fazendo enquanto estava te esperando. E, se eu não estava fazendo nada, que cumpra com adiantamento as obrigações que eu custo a terminar no prazo justamente para que possa me dar o luxo de não fazer nada em algum momento. Tempus fugit, minha gente. Dá pra desperdiçar não.

Obs.: evidente que esse final tosco é porque eu escrevi o texto num fôlego só depois de um episódio de atraso, aí passou o dia, eu fiquei bem e faltou ódio para escrever um final decente. Sinal de que eu não sou mesmo rancorosa.

 

Parabéns.

Você só me desgasta. Me cansa, me irrita, me torra a paciência. Você não vale o aluguel que eu pago para me manter por perto. Não vale desconto do chaveirinho do supermercado Zona Sul. Você me deixa aflita. Ansiosa. Você me entope de inseguranças e teima em culpar seus filhos que te descuidaram, te maltrataram e te transformaram nesse monstro. Insiste em me dizer que nem todos são assim, que você já foi um bom pai, e que mesmo entre os rebentos que você cruelmente relegou ao esquecimento, há quem não tenha herdado esse seu “jeitinho” exxxcroto de ignorar responsabilidades, mas não perder uma festa. E aí, como que num pedido de desculpas fajuto, você me seduz com suas curvas e cores. Eu mergulho nos seus abraços, me delicio nas suas ondas e me rendo, de novo. Acordo suada, melada, fritando de ódio – me perguntando por que raios eu ainda estou nesse relacionamento. Não há um dia, aliás, que meus pais não me perguntem quando vamos nos separar para sempre. Quando vou encontrar alguém melhor e, finalmente, você será apenas uma paixão do passado, um romance de verão, uma longa e impactante aula da vida. Afinal de contas, você só me fode. O problema é que é gostoso que dói.

Feliz aniversário, Rio de Janeiro. Aproveite seu dia. Eu não vou embora tão cedo.

Eu e o embuste. Olha como é bonita essa desgraça

Coração de Papelão

“Recortei a luz da lua e colei num papelão
Escrevi ‘assim sou sua’ e te fiz um coração
Encontrei você na rua, você nem deu atenção
Eu não sei qual é a sua, coração de papelão”

Passei o fim de semana todo cantarolando essa simpática musiquinha do Balão Mágico – porque eu sou esquisita o suficiente para lavar a louça ouvindo sucessos infantis dos anos 1980 – e me peguei com ódio do filho da puta que recusou o bendito coração de luz da lua. O tipo de ranço que só sente quem já gastou neurônios criativos e energia à toa com gente blasé. Oras, se eu me esforcei tanto para recortar a porra da luz da lua e colar no papelão, você não tem o direito de me retribuir com menos do que uma estrelinha. Não tem o direito de me negar os sonhos, os desejos, nem o lápis de cor caríssimo da Faber Castell que eu gastei com você. Não tem, não tem, não tem. Vá ser babaca assim no inferno. Tomara que você se apaixone pelo capeta e derreta esse seu coração vagabundo em declarações de amor para ele queimar feito carvão de churrasco. E que você morra lenta e dolorosamente enquanto assiste toda a sua paixão criativa se esvair feito um monte de nada traduzido em “gostei”.

Mas a coisa boa da vida é que eu não sou o eu-lírico da Simony apaixonada, mas uma mocinha crescida e vivente em pleno 2018 onde terapia não é coisa de maluco – a não ser para aquela parcela da população que continua presa na Idade da Pedra e resiste através do tempo para cumprir a cota do retardo na humanidade – e já entendi que, coitado, o mocinho tinha mesmo o direito de não gostar do dito coração reluzente. O negócio de não dar atenção na rua é meio mal-educado, mas aí é outra categoria de ser humano (ser babaca e ser mal-educado são coisas bem diferentes, eu creio). Na verdade, pode ser que ele super tenha conversado com a criatura, mas como “dar atenção” para gente apaixonada costuma ser o mesmo que “corresponder sua enxurrada de sentimentos descontrolados”, ela provavelmente não notou o esforço do cara para ser gentil quando tudo o que ele conseguia pensar, constrangido, era “meu Deus do céu, ela é um doce, mas eu definitivamente não gosto dela desse jeito”.

Simony tinha mesmo é que se conformar com o pé-na-bunda, chorar mais umas três noites como no refrão (e entãããão chorei/e até pensei/amor assim pra quê?) e seguir em frente, até encontrar quem se habilite a recortar toda a Via Láctea, encher de purpurina e colar numa faixa de avião em Copacabana. Afinal, a gente não é obrigado a gostar de ninguém, né? Devia é vir de fábrica a compreensão de que esse negócio chamado “sentimento” funciona muito diferente em cada um, porque ô liçãozinha dolorida de aprender. Na verdade, outra coisa engraçada que a gente entende com o tempo é que mesmo quem ama loucamente nem sempre se dará ao trabalho de gastar rima e lápis de cor para demonstrar afeto. Pode ser que ele só te cobre marcar médico e fique muito bravo quando você esquece de avisar que chegou em casa. Mas não vou me estender muito nesse tópico porque, como diz uma amiga minha, a gente não pode dar tanto spoiler da vida para quem ainda não passou o mesmo perrengue.

No fim das contas, olha que coisa boa, terminei de lavar a louça com menos ódio do rapazinho. Mas pensei que o coração devia estar bem bonito. Fossa inspira a gente que é uma beleza.

(caso você, leitor, não conheça essa belezura de música, taí o link – e não vale rir)

2018

Há exatos dois meses, um pesadelo me acordou para minha última crise de ansiedade. E, naquele sábado fresco de novembro, eu rezei implorando por ajuda. Ressalte-se aqui, leitor, que embora eu me considere uma pessoa de muita fé, orar me dá uma certa preguiça. A sorte é que, minha nossa, meu santo é forte. Meus santos, no caso – levando em conta o time de intercessores a quem apelo quando preciso rezar por qualquer coisa. Não costumo pedir muita coisa para Papai do Céu, mas quando eu peço, o Cara leva a sério. Naquela noite, suando frio e com coração acelerado, pedi que o novo ano me trouxesse paz. E, como que a última fase de um jogo difícil, dezembro foi movido a inquietudes, mas carregava uma pontinha de esperança. Como dizia uma querida professora da época do vestibular, foi “o último abdominal dolorido para ter certeza que vai ficar com a barriga sarada”. O último fôlego na exaustiva maratona de 2017.

Reza a lenda que a gente não pode elogiar nada tão cedo; mas prefiro encarar este texto com um exercício de gratidão. 2018 chegou lindo e leve; meu tão esperado presente de aniversário. Não me lembro de alguma vez ter cumprido durante um mês inteiro qualquer uma das promessas de Reveillon. Até agora, tudo caminha bem. Neste janeiro abafado e atípico – os dias de Hell de Janeiro só chegaram agora -, li jornal todos os dias, vi bons filmes, li três ótimos livros (um sobre capitalismo, um sobre cristianismo e um romance histórico com princesas e criaturas mágicas; dá para ser mais eu?), comecei a estudar italiano, voltei a cantar e tocar violão (obrigada, pai) e sigo correndo na praia de Copacabana. Em cada uma destas atividades consigo transbordar um pouquinho do meu excesso, e o curioso resultado deste esforço para manter meus pensamentos ocupados com o que presta é que tem me sobrado tempo para tirar pó da minha coleção de estátuas da Disney, recolher a roupa do varal, modelar meus cachinhos, passar creme hidratante nas pernas e protetor solar nas bochechas. Minutinhos que me fazem sentir dona de mim, do meu cantinho, do meu espaço, por dentro e por fora – uma impagável sensação de equilíbrio entre a liberdade e o autocontrole que há de se estender pelos próximos onze meses. Ou, assim eu espero.

(vamos pedindo aos poucos, para o Amigo não achar que é abuso)

Sobre cócegas e Lula-lá

“Você vai encontrar (a alegria) entre amigos e amantes reunidos no fim de tarde de um feriado. Entre adultos, geralmente se arranja algum pretexto para o riso na forma de piadas, mas a facilidade com a qual os menores gracejos produzem risadas nessas horas mostra que elas não são a causa real. Não sabemos qual é essa causa verdadeira. Algo parecido com isso é expresso em boa parte dessa arte detestável que os humanos chamam de música; algo semelhante acontece nos Céus”.

C. S. Lewis, Cartas de um diabo a seu aprendiz

Ontem, você chegou tarde do trabalho e interrompeu minha leitura noturna reclamando da cor clara do meu sofá novo, que “vai dar um trabalhão para limpar”. “A ideia é colocar uma capa”, expliquei, e você prosseguiu com o gracejo se dizendo surpreso com “o quanto eu sou inteligente”. Me arrancou gargalhadas enquanto se despia das roupas de trabalho cantando o jingle do Lula; antes de comemorarmos juntos que já é “Lula preso” na Austrália. Perguntou sobre o meu dia e me disse para ficar atenta aos efeitos colaterais da vacina contra febre amarela, rindo do meu alívio por não ter desmaiado nem precisado de você para segurar a minha mão (não precisei nem da enfermeira, que fique claro). Depois do banho, deitou no meu colo e me fez cócegas. Gargalhei de novo acariciando seus cabelos molhados e me virei para o lado, sentindo seu braço ao redor da minha cintura.

Segundo antes de adormecer, recordei o capítulo de “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, sublinhados a lápis momentos antes de te ouvir virar a chave da porta. E te agradeci por dentro (e agora, neste texto, rs) por ser um pedacinho do meu Céu. Por todas as risadas e instantes de cumplicidade partilhados nestes seis anos. Te agradeci especialmente por não ter me deixado ir embora quando os beijos e carícias pareciam perder o sabor e as divergências pareciam intransponíveis. Obrigada por ter insistido. Por ter se esforçado. Por ter implorado por mais uma chance e por ter aceitado meus pedidos de desculpa nas inúmeras vezes em que eu injustamente agi como quem já partiu. Seu zelo, seu apoio e seu filé temperado com ervas da Provence me convenceram a ficar mais um pouquinho, e todos os dias em que me percebo em paz ao dormir do seu lado me convencem de que a ideia de ficar para sempre é mesmo um bom negócio.

Obrigada por ser a minha alegria. E por torcer comigo para que o Lula seja preso mesmo, rs.

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