Vamos falar sobre a inveja?

Falar dos próprios defeitos nunca é uma coisa fácil. A gente costuma diminuir, maquiar, ou até exagerar na medida. Mesmo assim, não é tão difícil admitir que somos ansiosos ou preguiçosos, que guardamos rancor ou contamos mentiras. Afinal, um defeitinho ou outro aí, todo mundo tem. Assumir que desejamos o que é dos outros é outra história. É quase como confessar que falamos mal de amigos pelas costas. O tipo de defeito que a gente pensa “meu Deus, que pessoa má”. E eu não me refiro à chamada “inveja branca” – na qual eu honestamente acredito, dependendo do caso. Não se trata de admirar o cabelo de uma amiga, ou desejar um relacionamento agradável como o casal de amigos que é quase um comercial de margarina.

Falo daquela inveja feiosa, que deixa a gente pesado. Aquele sentimento de que o outro também pode ser feliz, desde que um pouco menos que eu. Desde que não alcance o que eu quero, que não seja minha concorrência e, principalmente, que não saia exibindo. O nível hard extreme da inveja, a la Rainha Má da Branca de Neve, é a sabotagem. Mas, como quero crer que no meu Facebook só tem gente de alto nível que não se presta a esse papel de vilão de novela mexicana, falemos da inveja mesquinha, manhosa, que não faz barulho, mas vai espalhando suas raízes no coração e acaba por tomar o terreno todo.

Infelizmente, às vezes, sou uma pessoa invejosa. É triste admitir, mas é verdade. Há alguns dias, um conhecido contou que está participando de um processo seletivo para uma vaga de estágio em uma mega empresa de comunicação. Um não, um monte. Parece que na mesma semana todo mundo resolveu dar um salto na carreira e eu fiquei para trás. Fiquei com invejinha. O engraçado é que, há pouco tempo, neguei uma vaga parecida. E decidi que não quero trabalhar nessa área, que meus sonhos são outros e que, portanto, meu caminho deve ser diferente também. Só então percebi que estava invejando um sonho que sequer é meu.

Falar de intercâmbio costuma ser outra encrenca. Não escondo de ninguém que minha #eurotrip não foi tão bela quanto as fotos que ostentei no meu Instagram. Há outro textões a respeito na página, caso você queira conhecer melhor minha desventura portuguesa. Basta que o leitor saiba que me decepcionei bastante e, até hoje, não lido bem com pessoinhas que voltam saltitantes de suas viagens. Sinto como se cuspissem em todos os meus esforços antes e durante o intercâmbio, me dizendo “olha como nós estamos felizes, uma pena que você tenha se ferrado”. Feio né? Também acho. Inclusive, se você, leitor-amigo, vai ou foi viajar, e eu não fiz uma super festa “AI MEU DEUS QUE TUDO FOI A MELHOR COISA DA MINHA VIDA”, taí a explicação. E meu pedido de desculpas. Meu coração chegava a doer de inveja, provando mais uma vez que a coisa mais interessante (e unânime) sobre os sentimentos ruins é que eles só machucam o hospedeiro.

Depois de muita terapia, melhorei um bocadinho. Hoje vejo que, na verdade, aprendi MUITO. Modéstia à parte, a bendita independência que se espera de um intercâmbio já corria em minhas veias desde os 17 anos. Não fui a campeã dos “check-in” em países, mas aprendi a controlar minha ansiedade, minhas expectativas e, hoje, meu ego. Coisa que, segundo minha psicóloga, a maioria das pessoas leva a vida toda para aprender. Finalmente, entendi que se aventurar fora da própria zona de conforto – que não é sinônimo de viajar, mas aceitar e conviver com as intempéries da vida – é coisa para corajosos e, cá para nós, eu não sou pouco, não.

Já tive inveja de gente com mais dinheiro, gente mais inteligente e (pasmem) até com mais fé. Já invejei problemas de família que me pareceram menores que os meus. Certa vez, saí para trabalhar abatida, e ouvi de um sábio colega: “Toda vez que se sentir assim, olhe para um prédio desses (apontando para um edifício bem grande), e pense que em cada uma dessas janelinhas rola pelo menos um quebra-pau por mês”. Virou meu macete. Outra coisa bonita que ouvi de uma prima e, anos depois, li num livro sobre a história da Pixar, foi: “Contrate/encontre pessoas melhores que você”. A obra  – “Criatividade S/A”, caso algúem se interesse – ainda prevê a invejinha, e explica que é normal nos sentirmos ameaçados. Por experiência própria, atesto o quão gratificante é conquistar aos pouquinhos a qualidade almejada, apenas por aceitar a “inferioridade” e substituir a inveja por carinho e admiração – o que evita também o espírito sanguessuga/interesseiro.

Não vou me alongar na discussão sobre os milhões de filtros que usamos nas redes sociais e a burrice de acreditar que toda felicidade é autêntica, que isso todo mundo sabe. Na verdade, também não acho que transformar o Facebook no Muro das Lamentações seja a solução. Adoro postar fotos bonitas de momentos felizes e declarações apaixonadas. Mas gastar um pouco menos de tempo bisbilhotando a vida alheia me parece uma proposta interessante. Ter em mente a proposta das “janelinhas” também. Vai de cada um. Este texto (quase uma confissão, rs) é resultado do meu desejo de ser um pouquinho mais “sem filtro”. Considero-o de utilidade pública porque outro fruto ruim dos sentimentos mesquinhos é a sensação de que estamos sós. Não é verdade. Eu, pelo menos, estou por aqui. Com minha inveja, minhas neuras, minhas encrencas e minha vontade de melhorar a cada dia – pelo menos nisso eu sou belezinha.

Nota: Vocês já devem ter percebido que sou cristã. Caso você, leitor, também tenha fé, deixo mais um “toque” para os dias de invejinha braba. Além de rezar Ave-Marias e Pai-Nossos à rodo para me distrair, gosto de ler o Salmo 36, que diz: “Não te irrites por causa dos que agem mal, nem invejes os que praticam a iniquidade. (…) Espera no Senhor e faze o bem, e habitarás a terra em plena segurança. Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração Ele atenderá (…) Em silêncio, abandona-te ao Senhor, põe tua esperança Nele. Não invejes o que prospera em suas empresas, e leva a bom termo seus maus desígnios”. Bonito, não? Me ajuda bastante. Espero que a você também.

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Essa foto com cara de campanha motivacional é uma das minhas últimas no Porto, cidade onde fiz meu intercâmbio. Depois de muita terapia, finalmente eu estava em paz.

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Moça, você não perde por esperar!

Moça, você não perde por esperar. Você só reclamou que quer um namorado, ele venceu o “par ou ímpar” contra o colega, tomou seu anel de brilhante e te pediu a mão. A brincadeira pareceu tão “real” que o amigo pediu para tirar uma foto “do casalzinho”. E você está aí, com “sorriso de foto”, suspeitando que alguém levou a situação a sério demais, torcendo para que esteja enganada. Não quer comprometer os estudos e não quer começar um namoro no ano do vestibular. Aqui, em 2014, a gente diria que você não sabe de nada, inocente. Espera só ele começar a te ligar todo dia. Espera ele começar a se sentar na cadeira de trás para afagar seus cabelos e acariciar seu rosto quando esbarrar no corredor. Você não imagina o quanto você vai gostar, moça. Não imagina o quanto vai custar para admitir também.

Eu sei que você quer se mudar para o Rio no ano que vem, moça. Sei que é complicado mesmo começar a namorar agora. Mas nós duas sabemos que você não está com medo da distância. Está com medo é da aproximação. Está apavorada com a possibilidade de ele passar na faculdade também e arrastar essa “situação” para sua tão sonhada vida na Cidade Maravilhosa. A verdade é que você sabe que gosta e tem medo é de gostar mais. Você nunca teve medo de se apaixonar, moça! O que acontece? Você teme o fato de ele pensar diferente, tudo bem. Tem até um pouquinho de receio porque, digamos, ele não é conhecido por ser muito carinhoso. Além disso, ele não é o galã, não é o “playboy”, nem o “popular”. Mas é o mais inteligente. Reservado, desencanado, despreocupado. E mesmo assim você insiste para si mesma que ele “não é o seu tipo”. Como a senhorita está enganada. Você está é com medo daquele monstro barulhento e feio chamado A Opinião dos Outros. Um bicho pequeno e sem-graça que vive acorrentado, e que só te machuca porque você chega perto. Como você é teimosa, moça.

A boa notícia é que, em alguns meses, você será presenteada com um lapso de “e daí?” e se deixará levar por um segundo de desejo. Vai ganhar uma pitada de coragem e desatar um nó apertado de razão. Vai esquecer seu “conto de fadas” e viver a maravilhosa aventura de enfrentar A Opinião dos Outros para resgatar seu Príncipe Desencantado. E lá, no quarto mais alto, da torre mais alta, da sala de estudos da escola, vai lhe roubar um beijo. Um beijo com gosto de segredo e de surpresa. Com um tanto de receio, sim, mas um bocado vontade. Uma pena que tenha sido tão rápido! Ao menos, te asseguro que os próximos anos vão compensar seu beijinho mixuruca.

Você vai governar sonhos, conquistar reinos, e contará com uma doce companhia. Contará com carinhos, abraços e sussurros e sorrisos – que não vou relatar aqui para que A Opinião dos Outros não descubra que seu Príncipe Desencantado é, na verdade, encantador. E vocês vão escrever histórias sobre manhãs de praia no Rio de Janeiro e noites de crepe em Niterói. Serão felizes para sempre por dois anos, oito meses e algum tempo mais – que eu espero que seja bem grandão.

Aumenta o sorriso da foto, moça, e guarde-a com carinho. Encontrei-a em meados de 2014 e me ocorreu que você talvez quisesse ouvir o final da história. Escrevo-te, querida, pelo mesmo motivo que seu amigo fotógrafo imortalizou no verso do retrato: “Para provar que sempre podemos nos surpreender com coisas maravilhosas”. Você nem acredita o quanto, moça. Você não perde por esperar!

Feliz dia 24 ❤

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“Era uma vez”, eu e meu mala-sem-alça. Há quatro anos.

Nota da autora: vocês devem ter notado que este texto foi escrito no ano passado. É um dos meus favoritos. O beijo de 24 de novembro hoje faz quatro anos, mas a história continua verdadeira. Quem sabe um dia não se torne um clássico da Disney? 

Festa no Céu

Já sou quase jornalista, mãe, e o tempo para escrever é curto. Mas não gosto de deixar passar em branco. Quando escrevi a homenagem no primeiro período, não imaginava que chegaria tão longe – e não tenho dúvidas de que a senhora tem a ver com isso. Comecei a estagiar e a ganhar meu dinheirinho, vi o Papa de perto na Jornada, fiz boas matérias para um jornal conhecido no Rio e fiz intercâmbio. O namoro está vingando e ele até viajou comigo, mas morou na França (não precisa arrancar os cabelos!). Conheci Fátima e o Vaticano e chorei todas as lágrimas que derramaríamos juntas ao conhecer o Santuário, a Capela das Aparições, a Basílica de São Pedro e a Capela Sistina. Sei que estava lá comigo, mas daria tudo para ter visto seu sorriso!

No mais, o Rio de Janeiro continua lindo, mas Lorena continua a ser meu lar. Nada se compara àquelas ruas pacatas tão cheias de memórias da nossa família, da nossa cultura, da nossa fé. Não há vista para o Cristo que pague o tempo – cada vez mais escasso e precioso – que tenho com as meninas. Tenho certeza de que a senhora já sabe, mas às vezes, gosto de ensaiar como vou te contar o quão linda está a Carol​, com aqueles cabelos cacheados e corpão de modelo, o quanto me divirto com o sorriso e o eterno “modo foda-se” (com o perdão da palavra, rs), da Maria Thereza​, ou quão inteligente, compreensiva e madura é a Maria Lúcia​, nosso rabinho de tacho que você mal conheceu, fisicamente. Devo admitir que, com toda a sua chatice (e alguns exageros – eu li Harry Potter e não virei bruxa, tá?) para nos botar na linha, a senhora fez um excelente em trabalho. Papai do Céu deve ter te avisado que o “curso” deveria ser intensivo. Afinal, mesmo após 13 anos de saudade, seus ensinamentos mais preciosos continuam vivos em nós: a fé em Deus, o amor à família, o respeito e o cuidado com o próximo e a coragem para lutar pelo que é certo.

#SomosTodasAnaMyrian ❤

#SomosTodasAnaMyrian

#SomosTodasAnaMyrian

*Este texto é a “atualização” de uma homenagem feita em 2012, para o aniversário de 10 anos de dona Ana Myrian lá em cima. A postagem fez “sucesso” no Facebook e é um dos meus favoritos. Outro dia, coloco o original aqui.

Marias de Fátima

Fátima, 13 de outubro de 2014.

“Espero que você tenha gostado do seu presente de Dia das Crianças. Você teria adorado estar aqui. Afinal, antes de desejar ser uma princesa da Disney, você sonhou com os encantos de Fátima. É seu filme favorito, não? Não tem mais de dez anos e já não se lembra de quando ganhou. Sabe todas as falas, desde os diálogos entre os pastorinhos à oração do Anjo de Portugal. Não se cansa de rebobinar a fita cassete para admirar a Senhora de branco pousada sobre a azinheira da Cova da Iria.

A verdade é que, muito antes da fita, Nossa Senhora sempre esteve em sua vida, e você nunca duvidou dessa presença. Talvez esta seja a maior diferença entre nós. Infelizmente, não tenho sua facilidade de fechar os olhos e ver meus amigos do Céu ao meu lado. Não me dou por satisfeita quando os adultos me dizem que as coisas são porque o “Papai do Céu quis”. A boa notícia é que tenho aprendido que isso não é um problema, necessariamente. Quando se vive em um turbilhão de dúvidas, pequenos carinhos do Alto ganham o tamanho de um milagre. É o jeitinho que Jesus arranjou de não deixar que eu me afaste tanto de você. De fato, não temos muito em comum. Espero que não se decepcione. Você quer ser freira, para se parecer com as inúmeras santinhas de resina que decoram seu quarto e sua casinha de bonecas. Eu tenho namorado – os meninos melhoram com o tempo, acredite! – e estou a poucos passos de me tornar uma jornalista. Mesmo assim, quero dedicar meus estudos à comunicação católica, e contribuir, do meu jeito, para que mais gente veja as coisas bonitas que você vê na Igreja Católica. Acho que é mais ou menos isso que você gostaria, não?

Confesso que não costumo pensar muito em você porque acredito que a melhor forma de honrar seu amável coração de criança é tornar-me uma “gente grande” de Deus. Às vezes, ficar preso ao passado não ajuda muito. Mas foi impossível não imaginar você saltitando como um cabritinho pelo Santuário de Fátima. A estátua do Anjo de Portugal na Loca do Cabeço é idêntica à cena do filme, você teria adorado! E certamente teria tentado levar para casa as ovelhas (de verdade!) da casa onde viveu a Irmã Lúcia, na qual você se inspirou para ajudar a escolher o nome da sua irmãzinha –que, aliás, não vai ser “inha” por muito tempo. Detalhes à parte, dedico todo este fim de semana abençoado a você. Desde o Rosário na Capela das Aparições na noite de sexta-feira à incrível procissão da madrugada de 13 de outubro, aniversário da última visita de Nossa Senhora à Cova da Iria.

Feliz Dia das Crianças atrasado, mais uma vez. Espero que tenha gostado da lembrança. E que esteja feliz com minha visita. Na próxima vez que vier passear pelos campos da memória, espero te presentear com novos sonhos realizados. Pare de brigar comigo pelo namorado, você não vai ter nojo de beijo por muito tempo. Por enquanto, aproveite cada segundo de sua infância abençoada, querida. Cada delicioso sentimento de seu coração de criança. Aproveite sua fé plena e sua confiança infalível. Você se precisará do “estoque” com o passar dos anos. Dê um abraço apertado na mãe. Diga-lhe que um passarinho te contou que você vai à Fátima. E ela estará lá. De uma maneira muito mais especial que ela imagina.

Não digo “que Nossa Senhora te abençoe”, porque sei que Ela já o fez. E muito. Sobram-te motivos para agradecê-la. A começar pela honra de ser chamada Maria.”

Fátima, terra de Marias.

Cuidado. Jornalista/devota armada.

Invicta saudade

É com um nó na garganta que hoje, 29 de outubro de 2015, admito publicamente que sinto saudades de Portugal. Foi difícil, minha gente. Não escondo de ninguém que meu intercâmbio não foi a super-hiper-incrível-viagem-dos-meus-sonhos. Mesmo com toda a terapia, enfiei na cabeça que todo o tempo e dinheiro (caramba, o dinheiro!) que gastei planejando a viagem não renderam o que eu esperava e que, portanto, as experiências em terras lusitanas deviam ser colocadas em uma caixinha e enterradas naquele canto da memória que a gente joga as decepções.

Gastei muito nos primeiros meses e não pude viajar como gostaria (existe coisa pior do que se decepcionar consigo mesmo?), morei com uma mulher biruta, não fui bem acolhida por meus colegas de classe e tive professores grosseiros. Dormia e acordava com raiva do frio que me privava dos meus amados vestidos, praguejava o arroz empastado e a carne bovina de má qualidade. Longe dos meus pais e irmãs, passei o Natal e o aniversário – vale lembrar que, solidariamente, divido meu dia com o Ano Novo – mais dolorosos da minha vida e chorei de saudades do meu país como se os ventos do norte soprassem a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, em meus ouvidos todas as manhãs. Nada que estivesse no meu “script”. Portanto, cada vez que alguém me pergunta “como foi de viagem?”, sofro de uma indecisão maior que a que senti ao escolher as cores desse blog – a publicitária e veterana Paula Isabele que o diga.

Não sei se foi a visita ao Museu da Língua Portuguesa, na última quinta-feira, o texto da Alexandra sobre o Porto no Jornal Zero Hora (parabéns, Ale!) ou as pesquisas que fiz sobre a história da Princesa Isabel para um trabalho de faculdade recentemente. Acho até que esse processo começou justamente no aniversário da minha chegada no Porto, dia 20 de agosto, quando fui cobrir um evento pelo Jornal O Dia em uma casa portuguesa. O mapa de Portugal indicava algumas das incríveis cidades que visitei – Aveiro, Braga, Viana do Castelo, Lisboa -, e a decoração exibia as charmosas estampas de andorinhas, filigranas e rendas. Saí da casa com lágrimas nos olhos. Sequei-as rapidinho, para que não derretessem as finas paredes da caixinha que me separavam das memórias das Terras de Camões. Ledo engano.

A Ribeira do Porto, vista de Vila Nova de Gaia - tipo o Rio visto de Niterói, sabe?

A Ribeira do Porto, vista de Vila Nova de Gaia – tipo o Rio visto de Niterói, sabe?

Como as caravelas de Cabral, as saudades de Portugal cederam aos ventos das boas lembranças e navegaram por meus olhos mareados. Senti saudades do Rio Douro e das diferentes cores que lhe beijavam do amanhecer ao pôr-do-sol, em dias de sol e chuva. Das casinhas coloridas e bares movimentados que enchiam de vida a famosa Ribeira. Lembrei-me das ruas tranquilas, das lojas coloridas, das charmosas cafeterias e dos azulejos azuis. As praias de Matosinhos e Leça da Palmeira. As folhas de outono a decorar a Rotunda da Boa Vista. O Breyner 85 e o melhor karaokê do mundo. O imponente prédio da Câmara e a belíssima Estação de São Bento. Sem falar nos canais de Aveiro, a Veneza portuguesa, nos jardins de Braga, os castelos de Guimarães e a festa de Santoinho. O Castelo de São Jorge em Lisboa e, é claro, o lugar onde, literalmente, a Mãe de Cristo se fez ouvir em português: o Santuário de Fátima. Meu Deus. Como um dia pude me sentir menos do que absurdamente grata por ter vivido nesse país?

Ainda assim, as saudades das belezas lusitanas não se comparam aos guardiões das minhas melhores memórias de Portugal. Mais do que dos pasteis de nata (e isso é muita coisa), sinto falta de conviver com a risada maravilhosa da Paulete que, apesar de me ter sido apresentada na UFF, considero um presente do Porto. Das corridas pela Ribeira e conversas filosóficas com a Ale. Do bom-humor incansável da Flô. Das cartas do padre Bacelar e do estrogonofe do Thiago (só o estrogonofe, que do Thiago mesmo eu nem gosto). Das gírias da Kler e panquecas de Nutella da Laísa. Os encontros ao acaso com meus irmãos europeus, o grego Giorgos e o italiano Alessio (o Alessio já fala português direitinho, Giorgos que se vire para traduzir). Os éclairs e as compras ao lado da Rosa – a última amiga portuguesa, que lamentei não ter conhecido melhor antes. Além das chuvas de Lisboa ao lado da Camilla e o bacalhau à brás da mãe da Liliana. Dedico a vocês (e aos que porventura me esqueci de mencionar) este relato emocionado do dia em que me permiti morrer de saudades (no bom pessimismo português) do país e, principalmente, da Antiga, Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto. Pois. ❤

“Saudades, só portugueses

Conseguem senti-las bem

Porque têm essa palavra

Para dizer que as têm”

Fernando Pessoa, Quadras ao gosto popular 

Nota da autora: Esse texto foi escrito anteontem, mas, como estou publicando hoje, a data da “confissão pública” fica pro dia 29 mesmo. Agora mesmo, não estou tão saudosa. É já que volta.

15 da Maria Lúcia

Não tinha medo de criar quatro crianças, era o que todos diziam quando ela engravidou. Deixou pra trás todo o espanto de Lorena, “quatro filhos já é muito, acho que ela endoidou”. Descobriu-se então que era menina e a família foi comemorar. Ainda bem, porque se fosse menino, no Paraíba ele iria parar. Ainda me lembro muito bem da discussão se era Lúcia ou Luísa o nome do novo bebê. Lembro do dia que liguei pro hospital umas cento e cinquenta vezes antes de ela nascer. Foi então que chegou a caçulinha, e com carinho a gente recebeu. Maria Lúcia era uma menina linda, é uma pena que ela cresceu. O tempo passa e um dia chega a idade de virar adolescente, a idade do terror. As outras três já me deram muito trabalho, vê se usa o juízo que de mim você herdou. Eu sei que há muito a irmã não vai pra casa e a saudade já começa a apertar. Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia, eu quero bolo, brigadeiro e guaraná. Chegando eu lá eu vou ficar nervosa, e vou mandar tudo pro inferno outra vez. Com a Maria Lúcia eu larguei a minha blusa, e de tudo com a blusa nova ela fez. Maria Lúcia eu sou grande, coisa que você não é, e não uso suas roupas pelas costas não. Olha pra cá sua bochechuda sem vergonha, nunca mais te empresto nada nem pano de limpar chão. E eu não consegui o que queria quando há pouco comecei a escrever. Eu queria te dizer que logo eu volto pra te dar aquele abraço e lembrar que eu amo

Você! 

Renato Russo ficaria com inveja!

Felis 15, sweet child o’mine ❤

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Festa de 15 da Malú! Te amo, neném!

*Texto “reciclado” do aniversário de 2013, mas é meu favorito. 

Quando os sonhos ganham voz

O que começou com uma sugestão de pauta qualquer se transformou em um delicioso presente de Dia das Crianças. Levei quase dois meses para publicar a matéria sobre dublagem (aqui) para o Jornal O Dia, mas, honestamente, poderia escrevê-la para o resto da vida. Além da emoção ao ouvir a voz de tantos personagens queridos pelo telefone, o contato com os dubladores foi uma experiência incrível, que merece um relato especial. Aos preguiçosos, adianto que vem “textão” pela frente. A parte “profunda” do negócio é o grand finale.

Não é preciso me conhecer muito para saber que sou aspirante assumida ao posto de próxima princesa da Disney, e que canto “Let it go” em casa, no chuveiro, na rua e até no karaokê do Porto, em Portugal – porque cantar “Ana Júlia” é para os fracos. Imaginem minha alegria ao conversar com a Elsa por telefone. A Taryn Szpilman, cantora de jazz e dubladora da rainha congelada mais famosa do mundo, recebeu a equipe do Dia em casa para uma tarde de fotos, e eu tive a  cara de pau honra de cantar alguns versinhos de “Livre estou” ao lado dela. Voltei para casa mais contente que o Olaf no verão.

Alguns dias depois, foi vez do Woody entrar para a matéria. Visitamos o estúdio do Marco Ribeiro, que também dubla o Flik, de “Vida de Inseto” (como eu não tinha reparado?), um dos desenhos que mais marcou minha infância. Marco também nos recebeu com toda a atenção e, de quebra, gravou um “oi” do Woody para meu primo, fã de Toy Story. No fim das contas, o áudio fez mais sucesso entre os adultos mal-crescidos para quem mostrei o recadinho. Adorei ouvi-lo imitar o Michael Kyle, de “Eu, a Patroa e as Crianças” e, principalmente, o Larry, de “Os Vegetais” – um desenho com histórias bíblicas protagonizadas por verduras e legumes (ó as ideia da minha mãe para me ensinar a rezar e comer ao mesmo tempo!).

O terceiro contato foi com o Philippe Maia, dublador do fofíssimo Remy, de “Ratatouille”, e do Sam Winchester, de Sobrenatural, cuja voz eu ouvi muito nos tempos em que assistia a série no SBT, com um pavor absurdo de cada capetinha que aparecia. Hoje, eu pego sal na cozinha só tomo sustinho no Netflix. A essa altura da matéria, eu já estava pensando em dar o fora da redação, armar minha trouxinha e pedir emprego de faxineira em um estúdio de dublagem, só para poder estar mais perto desse universo que, para mim, transborda uma mistura deliciosa de criatividade, humor e, principalmente, infância.

Perguntei ao Philippe o que ele achava da ideia e combinamos um café para conversar a respeito. No fim das contas, descobri que a voz do Remy já passou pelo jornalismo e pela publicidade e se parece bastante comigo quando o assunto é política e religião – embora eu goste bastante de conhecer opiniões diferentes, conhecer alguém bacana que pensa como você é sempre reconfortante. Ele me aconselhou a seguir a carreira de jornalista e, aos poucos, me aproximar do que quero, escrevendo, produzindo e inventando. Prometi que estaria na torcida pelos projetos dele, desde que pudesse contar com o voto de Sam Winchester para minha promoção a princesa da Disney.

Por último, conversei com o Guilherme Briggs, cujo trabalho eu já acompanhava há um tempo, devido às longas horas rebobinando fitas-cassete (!) de “Procurando Nemo”, “A Nova Onda do Imperador” e “Vida de Inseto”, além das sessões da tarde com “O Príncipe do Egito” e manhãs de férias com “Os Padrinhos Mágicos”, “As Meninas Superpoderosas” e “Liga da Justiça”. Como ele mesmo citou na entrevista, Briggs foi babá eletrônica de toda a minha geração. É claro que a primeira coisa que eu pedi quando entramos em contato foi um “oi” do Kronk!

A última pergunta da entrevista foi parecida com a que fiz para o Philippe: como eu faço para entrar nessa brincadeira de viver da arte, mesmo que não necessariamente como dubladora? Além de me encorajar a manter meu pé de meia (que está já todo furado, devido à crise do jornalismo impresso), Briggs me deu um conselho fofíssimo, baseado em sua própria experiência como ator e blogueiro: “seja seu próprio centro de entretenimento”. Trocando em miúdos, o pai do cão negão Tobias me encorajou a usar minhas precárias habilidades de atriz da Broadway frustrada para escrever, dançar e cantar sem medo expor o resultado nas redes, principalmente quando me faz feliz. Esse blog, que já estava em gestação há muito tempo, é um pouquinho culpa dele (quem não gostou, que se resolva com o Superman!).

Por fim, fui ao Complexo do Alemão conversar com a criançada do Projeto Vidarte sobre seus personagens favoritos. A Luiza, a Yasmin e a Katlyn ganharam um beijo da Elsa e até gravaram sua própria versão de “Livre Estou”. O Ithalo, que quer ser patrulheiro espacial, ficou feliz da vida com o incentivo do Buzz. Ele até conversou com o Woody no telefone! O Thallys e o Nicolas pediram “oi” do Optimus Prime. Ver a alegria dos pequenos foi de arrepiar. Para participar do projeto, a única exigência é que as crianças estejam na escola e passem de ano. Hoje, eles precisam de professores voluntários para ajudar quem tem dificuldade. Conto com vocês na divulgação! O telefone para contato é 98739-4551. É o número da Ellen, coordenadora que me recebeu com o maior carinho e que merece o título de super-heroína (juntamente com os outros voluntários) pelo cuidado com os pupilos.

Apesar da resolução capenga, dá para ver que a página ficou bem bonita. Obrigada, Berri!

Apesar da resolução capenga, dá para ver que a página ficou bem bonita. Obrigada, Berri!

Terminei a matéria da dublagem em um típico pescoção de sexta-feira – o dia que a redação fecha as edições do fim de semana – com duas dominicais para escrever. O dia fora estressante (sem trocadilhos, rs) e, quando finalmente me sentei para contar em alguns limitados caracteres toda a diversão das últimas semanas, concluí de que daria tudo para transmitir aos leitores um pouquinho da alegria que senti ao conversar com cada um dos entrevistados. O impacto da reportagem para mim, entretanto, foi muito além dos milhares de curtidas e visualizações: rendeu caraminholas para o mês inteiro.

Não tenho a menor vergonha de admitir que sou uma criança grande. Nada me dá tanto brilho nos olhos quanto a valsa da Bela e a Fera ou o rugido do Simba na Pedra do Rei. Tenho uma profunda paixão por canções de amor e finais felizes. Neste mês das crianças, meu contato com o mundo “infantil” foi tão intenso que me peguei questionando o porquê do meu apego. Cheguei à conclusão de que meu gosto pela infância foi um presente do Papai do Céu para o meu coração, que cresceu acostumado a ter responsabilidade de gente grande. Minha mãe sempre foi rígida no que dizia respeito a “certo e errado”, “causa e consequência”. No fundo, acho que ela sabia que só teria oito anos para imprimir seus ensinamentos no coração de quatro menininhas. Além de infinitas alegrias, ser a irmã mais velha de outras três Marias me deu o peso do “exemplo”, principalmente depois daquela tarde de 3 de novembro de 2002, quando ouvi do meu pai que a gente “teria que ser forte”. O resultado é que hoje, apesar dos meus gostos infantis e minha voz de rádio Capricho, bastante gente me define como uma pessoa “séria”.

Tenho orgulho da minha criação e de toda a seriedade com que aprendi a encarar a vida. É verdade que estou muito longe da “maturidade”, já fiz muita besteira e ainda farei um monte (e quem está comigo? o/). Preciso aprender muito sobre relações humanas, limites, respeito e empatia. Coisas que se exige de um bom “adulto”. Mas, sem falsa modéstia, toda vez que alguém elogia minha doçura (mesmo quando, por dentro, eu me sinto um limão), agradeço a Deus os resquícios de infância que Ele tão cuidadosamente cultivou o meu coração. Principalmente a extrema dificuldade em esperar o pior das pessoas e, é claro, a crença cega em finais felizes – vale ressaltar que atribuo ao mundo “adulto” a consciência de que eles não são nem um pouco fáceis. Acho que o equilíbrio entre virar gente grande sem deixar de ser criança é por aí: caminhar com responsabilidade e sabedoria, sem perder a capacidade de se encantar com a vida, e acreditar que ela pode, sim, ser deliciosa.

Todo esse lero-lero é para dizer mais uma vez que o mês de outubro foi incrível e me trouxe uma vontade louca de me esforçar para que qualquer ambiente onde eu esteja tenha um pouquinho da diversão que experimentei ao conversar com os dubladores e as crianças no Complexo do Alemão. Quanta gente linda! Nunca vou agradecer o suficiente aos envolvidos. Taryn, Marco, Philippe, Briggs, Ellen e fofuras do projeto Vidarte, vocês plantaram novas mudinhas coloridas nos canteiros que Papai do Céu preservou uma menininha de cachinhos dourados que, aos 20 anos, ainda fará questão de assistir desenhos animados e filmes de super-herói. Obrigada mesmo. Por fim, fica a mensagens de dois caras que admiro muito. Um usou da criatividade para inventar um mundo onde sempre se pode ser criança. O Outro deu a dica de por que jamais devemos deixar de sê-lo.

“That’s the real problem with the world: too many people grow up” – Walt Disney

“Em verdade vos digo: se não vos tornardes puros como uma criança, não entrareis no Reino dos Céus” – Mateus 18, 3.

Corre, Maria

“A imaginação foi a companheira de toda a minha existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento; (…) Neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre.”

(Machado de Assis, Dom Casmurro)

Se Bentinho (protagonista de “Dom Casmurro”, aos desavisados) fosse parte da Geração Y, certamente seria blogueiro. Afinal, devanear em público nunca foi tão fácil. Lidar com as próprias “éguas” é que continua a ser complicado. Não dá para esperar outra coisa de uma quase jornalista com mais ideias na cuca do que letras de músicas da Disney fios de cabelo. “Corre, Maria”, portanto, é o resultado de quando eu desacelero a consciência, a pressa, a realidade, e me permito voar pelos campos da imaginação. É o fruto das minhas caminhadas com fones de ouvido, falando e cantarolando para o vento, pelas praias de Niterói e, eventualmente, pelas pacatas ruas de Lorena. Para variar, Vinícius de Moraes andava inspirado, e escreveu um convite à liberdade dedicado às muitas Marias que não se conformam com as próprias grades. Decidi aceitar o meu. Espero que gostem do resultado!

“Corre, Maria
Que a vida não espera
É uma primavera
Não podes perder”

(Vinícius de Moraes, Olha Maria)

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